Em 25 de novembro do ano passado, a assembleia-geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) fixou o dia 5 de maio como Dia  Internacional da Língua Portuguesa.

Além do 5 de maio,  há duas outras datas em que se comemora a Língua Portuguesa:
– no Brasil em 5 de novembro, Dia Nacional da Língua Portuguesa, criado pelo decreto-lei nº 11.310, de 12 de junho de 2006, em homenagem ao escritor e político brasileiro Rui Barbosa, que nasceu em 5 de novembro de 1849;
– em Portugal em 10 de junho, homenagem a Luís Vaz de Camões, que faleceu neste dia em 1579.

Nossa homenagem à Língua Portuguesa é um texto de Clarice Lispector que, neste 2020, completaria 100 anos.

Declaração de Amor

Clarice Lispector (1920-1977)

Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não íoi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialísmo.

Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complícado. Às vezes se assusta com o imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la – como gostava de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às vezes a galope.

Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo nas minhas mãos. E este desejo todos os que escrevem têm. Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar para sempre uma herança de língua já feita. Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que Ihe dê vida.

Essas dificuldades, nós as temos. Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega.

Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu queria pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.

Clarice Lispector, A descoberta do mundo, Rio, Nova Fronteira, 2ª ed., 1984, págs. 134-135