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Nesta sexta-feira dia 30, às 19h, conclui o Ciclo de Cinema 2017 que incluiu, entre maio e junho, cinco obras baseadas em textos literários brasileiros.

E finaliza com o grande sucesso de Ariano Suassuna, “O Auto da Compadecida” (1955), filme de Guel Arraes (2000), com Matheus Nachtergaele, Selton Mello, Fernanda Montenegro, Denise Fraga, Marco Nanini, Virginia Cavendish, Diogo Vilela, Rogério Cardoso, Lima Duarte, Enrique Diaz, Aramis Trindade, Bruno Garcia, Luis Melo e  Maurício Gonçalves. 

O dramaturgo e romancista brasileiro Ariano Suassuna (João Pessoa – PB, 16 de junho de 1927 – Recife, 23 de julho de 2014) foi o principal precursor do Movimento Armorial no Nordeste, que estava formado por um grupo de intelectuais e folcloristas dedicados à descoberta e recriação das expressões populares tradicionais nordestinas. Como professor de estética e teoria de teatro, Suassuna se envolveu no ofício de escrever peças e dirigir grupos teatrais. Ele é autor do Auto da Compadecida, considerado uma obra-prima da literatura brasileira.

auto compadecida 2Suassuna restaurou o auto religioso medieval — uma forma de teatro ao ar livre, com peças em forma de verso, alusivas a algum aspecto do mistério da Santíssima Eucaristia. Suassuna explorou e adaptou o auto ao teatro contemporâneo em obras como o Auto de João da Cruz (1950) e o Auto da Compadecida (1955) (que o lançou à fama), entre outros. Se bem os autos de Suassuna mantêm o tom religioso dos autos medievais, o dramaturgo lhes confere um tom picaresco e transgressor com personagens populares nordestinos, muitos inspirados nos folhetos de cordel: o malandro, o sertanejo mentiroso (como João Grilo), o cangaceiro (como Severino de Aracaju), os capangas etc.

Fonte: http://escola.britannica.com.br/levels/fundamental/article/Ariano-Suassuna/574518

Trecho de “O Auto da Compadecida”:

MULHER: – Que é que vocês estão combinando aí?
JOÃO GRILO: – Estou dizendo que, se é desse jeito, vai ser difícil cumprir o testamento do cachorro, na parte do dinheiro que ele deixou para o padre e para o sacristão.
SACRISTÃO – Que é isso? Que é isso? Cachorro com testamento?
JOÃO GRILO: – Esse era um cachorro inteligente. Antes de morrer, olhava para a torre da igreja toda vez que o sino batia. Nesses últimos tempos, já doente para morrer, botava uns olhos bem compridos para os lados daqui, latindo na maior tristeza. Até que meu patrão entendeu, com a minha patroa, e é claro que ele queria ser abençoado pelo padre e morrer como cristão. Mas nem assim ele sossegou. Foi preciso que o patrão prometesse que vinha encomendar a bênção e que, no caso dele morrer, teria um enterro em latim. Que em troca do enterro acrescentaria no testamento dele dez contos de réis para o padre e três para o sacristão.
SACRISTÃO: – (enxugando uma lágrima) Que animal inteligente! Que sentimento nobre! (Calculista) E o testamento? Onde está?
JOÃO GRILO: – Foi passado em cartório, é coisa garantida. Isto é, era coisa garantida, porque agora o padre vai deixar os urubus comerem o cachorrinho e se o testamento for cumprido nessas condições, nem meu patrão nem minha patroa estão livres de serem perseguidos pela alma.
CHICÓ: – (escandalizado) Pela alma?
JOÃO GRILO: – Alma não digo, porque acho que não existe alma de cachorro, mas assombração de cachorro existe e é uma das mais perigosas. E ninguém quer se arriscar assim a desrespeitar a vontade do morto.
MULHER: – (duas vezes) Ai, ai, ai, ai, ai!
JOÃO GRILO E CHICÓ, mesma cena.
SACRISTÃO: – (cortante) Que é isso; que é isso? Não há motivo para essas lamentações. Deixem tudo comigo. (Entra apressadamente na igreja).